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Património Arqueológico

 Historicamente, o território correspondente aos Três Povos remonta, pelo menos, ao Neolítico. No Salgueiro, designadamente no sítio das Antas foram recolhidos, em finais do séc. XIX, por Albano de Oliveira Frazão, dois objectos líticos: um machado de pedra polida e uma faca de sílex, depositados actualmente no Museu Nacional de Arqueologia. O topónimo «Antas» é de si ilustrativo da existência de monumentos megalíticos. Além do mais, esta estação arqueológica dolménica é testemunhada pelo Sr. Luís Cerdeira Reis, antigo presidente da Junta de Freguesia de Salgueiro, que se lembra ainda de ver no local referido, umas «pedras ao alto com uma laje por cima». Ou seja, era uma anta, destruída não há muito tempo.

Dada a sua importância transcrevemos na íntegra, um artigo da autoria de Félix Alves Pereira, dando conta da anta do Salgueiro, e publicado n' O Archeologo Português em 19344:

 Anta na Freguesia do Salgueiro

«Na margem esquerda da Ribeira da Meimoa, 100 ou 150 metros desviada da corrente, nos limites da freguesia do Salgueiro, concelho do Fundão, notava-se há muito uma pequena elevação do terreno. No meio da elevação viam-se, cobertas de musgo, umas pedras de granito, que nada indicavam, a não ser restos de parede antiga. O dono do prédio, precisando das pedras para uma obra que tinha em construção e escasseando o granito naquela região, mandou escavar com o fim de arrancar as pedras, que estavam à vista. Os primeiros trabalhos mostraram logo que as pedras eram mais do que eu supunha e muito maiores do que se calculava, pois tinham de comprimento perto de três metros e de largura quase um, sendo umas sete ou oito e com uma pequena inclinação para o centro. Foi no centro desta concavidade, completamente entulhada, que apareceram uns machados, como o que vai junto e um bocado de sílex em forma de faca, que os trabalhadores partiram e dividiram para lhes servirem de pederneiras. Hoje só existem no local 4 pedras na primitiva posição e o fosso aberto pelo lado sul. Nas pedras que restam nada há de notável, a não ser três riscos numa delas. Esta escavação foi feita em 1895 e 1896.»

Proto-História

O período proto-histórico está fartamente atestado nos Três Povos. O Escarigo possui dois povoados pré-romanos: uma deles situa-se no Cabeço do Escarigo e, outro, na Quinta do Anascer, embora este se encontre, quase na sua totalidade no vizinho Concelho de Penamacor.

João de Almeida refere-se neste moldes ao Cabeço do Escarigo:

«(...) Pela sua natureza e posição, é presumível que na sua origem tivesse consistido nem castro lusitano, mais tarde aproveitado e transformado pelos romanos, que teriam feito dele uma base da sua ocupação e domínio».

Depois do autor do «Roteiro dos Monumentos Militares...», o Castro dos Três Povos foi ainda estudado por vários investigadores como José Luís Cristóvão, A. Oliveira, Pedro Carvalho e Raquel Vilaça. Segundo esta última estudiosa, no cume povoado «detectam-se, esporadicamente, alguns alinhamentos de pedra». Além de material cerâmico, Raquel Vilaça detectou um fragmento de mó (dormente) e um peso de xisto. é possível situar este povoado no Bronze Final.

 O Período Romano

A Romanização foi particularmente intensa nos Três Povos, sobretudo no Salgueiro, maus grado também se tenha verificado com intensidade nas duas outras localidades. Do Salgueiro provieram vários monumentos epigráficos de grande importância: uma ara dedicada a Banda Voteaeceus, que foi identificada em 1942 por Alves Monteiro, após a demolição da velha capela de Santa Maria Madalena, na qual servia de suporte ao altar-mor. Depois, temos um marco miliário encontrado no Vale do Canto, invocando Valerius Licinianus Licinios Junior, filho do Imperador Licínio e insere-se cronologicamente dentro dos anos 317-326. Segundo J. Candeias da Silva, este miliário assinalava uma via romana serviria de apoio à grande via Mérida-Braga, com ligação à Capinha. Fernando Patrício Curado é da opinião que o marco é originário do Coito de Cima, a cerca de dois quilómetros a SE da povoação do Salgueiro.

Outro dos monumentos que saíram desta freguesia foi a estela votivo-funerária dedicada aos Deuses Manes, proveniente da Quinta da Caneca. Esta estação arqueológica, corresponderia a uma villa romana de consideráveis dimensões, equiparável a uma outra, a da Quinta do Prado Vasco. No entanto, o povoamento romano correspondeu ainda nestas zonas a muitas granjas e casais, num total global de mais de 35 sítios arqueológicos romanos. Dentro ainda, deste período, convém referir que o Museu Arqueológico José Monteiro do Fundão possui uma grande quantidade de cerâmica comum e de construção romana proveniente de Escarigo e ainda tijoleiras do alegado 'hipocausto' das Quintãs. Da Quinta do Anascer proveio ainda uma preciosa ninfa de mármore elemento plástico de elevada erudição. Por tudo isto podemos concluir que já no tempo dos Romanos não lhes foi alheia, a fertilidade das terras dos Três Povos.

Da Idade Média aos Tempos Contemporâneos    

Como se disse atrás, as mais antigas referências escritas que temos dos Três Povos, dizem respeito à aldeia de Escarigo, mencionada nas Inquirições de D. Dinis de 1314:

« A aldeya que chamam Ascarigo soya servir a El-rey e ao concelho e peitavam voz e coima, e ganhou-a o Espital de Joham Ramires e doutros homens de Covilham em o Tempo dél-rey Dom Sancho, tio deste rey, e e desentom trage-a por honra»

Por conseguinte, com base neste documento, podemos concluir que o Escarigo remonta, pelo menos, à primeira metade do século XIII, psob a égide da Ordem dos Hospitalários.

Por conseguinte, e na opinião de Joaquim Candeias da Silva, esta teria sido a povoação mais antiga dos Três Povos, sendo por conseguinte a «aglutinadora» dos restantes núcleos populacionais que viriam a originar o Salgueiro e as Quintãs. Assim, e ao contrário dos períodos históricos anteriormente focados, que estão fartamente documentados, a Idade Média e mesmo a Moderna é avara em testemunhos. E à falta de documentação que nos forneçam dados significativos sobre os Três Povos, continuam a ser as chamadas Memórias Paroquiais de 1758, a melhor fonte de informação histórica.

Nesse documento, o pároco do Salgueiro descreve assim o lugar:

«Está situado no fundo de hum piqueno monte, e delle se descobrem os lugares: das Quintans do Salgueiro, em distância de meio quarto de legoa; os de Escarigo, que pouco mais dista, pois apenas poderá sera sua distancia meio quarto de legoa; os da Bemquerença, distando este duas legoas e aquele huma».

Por seu turno, o pároco de Escarigo, informava: «Está neste lugar situado em huma quasi campina; della se descobrem dous pequenos lugares chamados Quintaãs e Salgueiro, em distância de hum quarto de legoa para o Sul, e os lugares da Bemquerença e Meimoa para a parte Nascente, em distância de legoa e meia».

A administração religiosa, como a civil, a partir de determinado momento, pressupôs a existência de duas paróquias distintas: Salgueiro (com o orago de S.Bartolomeu) e Escarigo (invocação de S.Sebastião). Mas mesmo após o desmembramento destas localidades do Concelho da Covilhã, a sua dependência arcipestral em relação ao antigo município era uma realidade, mantendo-se, até nessa condição "unidas": o Cura do Salgueiro era apresentado pelo prior da Igreja de S.Bartolomeu (Covilhã) e o de Escarigo pelo Comendador da ordem de malta (Igreja de S.João, Covilhã).

Em relação à produção agrícola ainda segundo as Memórias, produziam os Três Povos: centeio, trigo, feijão, vinho, linho e castanha.

No citado inquérito setecentista, o Salgueiro apresenta uma população de cento e noventa pessoas maiores e 20 menores enquanto que o Escarigo setenta e três vizinhos e quarenta e cinco pessoas maiores, e no lugar das Quintãs do Salgueiro, pertencente à freguesia do Salgueiro, cento e oitenta pessoas maiores e quarenta e três menores. Já nos censos de 1864 a freguesia do Salgueiro apresenta uma população de 879 almas contra 334 de Escarigo.